Áudios revelam suposta divisão de dinheiro do tráfico entre policial e delegado preso na Operação Perfídus

10 jun 2026 - Paraíba

Gravações obtidas pela investigação mostram negociações sobre drogas, armas e repasses financeiros; defesas negam participação no esquema — Foto: Reprodução

Novos áudios anexados à investigação da Operação Perfídus revelam detalhes do suposto esquema criminoso que levou à prisão do delegado da Polícia Civil da Paraíba, Braz Morroni, e dos investigadores Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como “Bomba”, e Eduardo Jorge Ferreira do Egito, o “Mão Branca”.

As gravações fazem parte de um conjunto de mais de 40 mil áudios analisados pela Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco). Segundo a investigação, os diálogos indicam uma possível negociação envolvendo drogas desviadas de apreensões policiais, divisão de lucros e até articulações relacionadas a armamentos.

Em um dos trechos, atribuído a Everton Aires, o policial cobra o pagamento referente a uma carga de cocaína repassada anteriormente e afirma que o delegado Braz Morroni já estaria pressionando pelo recebimento do valor.

“Meu bom dia hoje do delegado foi perguntando desse dinheiro”, diz a gravação.

Áudio sugere retenção de parte do valor destinado ao delegado

Em outra conversa interceptada, o investigador discute uma estratégia para não entregar imediatamente todo o valor que seria destinado ao delegado. Segundo o diálogo, a ideia seria informar que apenas parte da droga havia sido comercializada, reduzindo momentaneamente o repasse.

Para os investigadores, o conteúdo reforça a suspeita de que existia uma divisão de lucros oriundos da venda ilegal de entorpecentes.

Pix de R$ 8 mil e elogios aos ganhos do esquema

Outro trecho chama atenção pelo tom adotado na conversa. Em um áudio encaminhado ao delegado, Bomba relata ter recebido R$ 8 mil via Pix referentes à venda de drogas e afirma que a Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT), onde Braz Morroni atuava, proporcionava retornos financeiros expressivos.

Segundo a investigação, esse tipo de diálogo é apontado como indício da existência de uma estrutura organizada para comercialização clandestina de drogas desviadas.

Conversas também citam armas apreendidas

As gravações analisadas pela polícia não tratam apenas de drogas. Em um dos áudios, Everton Aires comenta uma reunião com Braz Morroni e outro policial para verificar a situação de quatro armas de fogo.

No diálogo, o investigador sugere que uma das armas poderia ser vinculada a um suspeito de assalto, enquanto as demais receberiam outro destino, situação que passou a ser investigada pelas autoridades.

Delegado seria visto como “proteção” dentro do grupo

Outro áudio considerado relevante pela investigação mostra o investigador descrevendo qual seria o papel do delegado dentro do suposto esquema.

Segundo o conteúdo interceptado, a principal utilidade de Braz Morroni seria oferecer uma espécie de blindagem institucional ao grupo em caso de denúncias ou apurações internas.

Para os investigadores, a fala demonstra a percepção dos suspeitos sobre a influência hierárquica exercida pelo delegado dentro da corporação.

O que dizem as defesas

A defesa de Everton Aires informou que o devido processo legal está em andamento e reafirmou que o policial não reconhece as acusações apresentadas pela investigação.

O advogado de Eduardo Jorge Ferreira declarou que considera improvável que policiais experientes realizassem negociações ilícitas de forma aberta e afirmou que os fatos precisam ser analisados com cautela durante o andamento do processo.

Já a defesa do delegado Braz Morroni sustenta que não existem elementos que comprovem sua participação consciente nos atos investigados e afirma que as acusações se baseiam em interpretações de conversas mantidas entre terceiros.

Operação Perfídus

A Operação Perfídus investiga uma organização criminosa suspeita de desviar drogas apreendidas durante operações policiais para posterior revenda ilegal. O grupo também é investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e vazamento de informações sigilosas para integrantes do tráfico.

Ao todo, foram cumpridos nove mandados de prisão e 24 mandados de busca e apreensão. A Justiça ainda determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 10 milhões em bens e valores dos investigados.

O nome da operação deriva do termo latino “Perfídus”, que significa traição ou deslealdade, numa referência às condutas atribuídas aos alvos da investigação.

 

O POVO PB

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