Marido de gestante que morreu após perder bebê no ISEA diz que indiciamento é apenas o começo: “A luta continua”

11 jun 2026 - Notícias

Mulher que morreu após parto no ISEA — Foto: Reprodução/Instagram (@jorge.elo)

Após mais de um ano de espera, o marido da assistente social Maria Danielle Cristina Morais, que morreu semanas depois de perder o bebê durante o trabalho de parto no Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (ISEA), em Campina Grande, afirmou que a conclusão do inquérito da Polícia Civil representa um alívio, mas está longe de encerrar a busca por justiça.

A investigação, concluída nesta semana, resultou no indiciamento de quatro médicos obstetras e duas enfermeiras. Segundo a Polícia Civil, os profissionais podem ter contribuído para o desfecho da ocorrência por meio de falhas no atendimento prestado à paciente.

Para Jorge Elô, marido de Danielle e pai da criança, a decisão marca apenas uma nova etapa de uma caminhada que começou há mais de 500 dias.

“É um alívio, mas também a certeza de que esse é apenas o primeiro passo. A gente confia no trabalho da Polícia Civil e acredita que tudo foi apurado com responsabilidade. Agora seguimos firmes, esperando que a Justiça faça sua parte”, declarou.

O que aponta a investigação

De acordo com a Polícia Civil, a conclusão do inquérito teve como base depoimentos de familiares, testemunhas, profissionais envolvidos, análise de prontuários médicos, documentos do pré-natal e laudos periciais.

As perícias apontaram que o bebê morreu ainda no útero em decorrência de uma ruptura uterina ocorrida durante a condução do parto. Segundo os especialistas, uma intervenção cirúrgica realizada em tempo adequado poderia ter evitado a morte da criança.

Os investigadores também identificaram indícios de violência verbal e psicológica sofrida pela paciente durante o período de internação.

Maria Danielle sobreviveu inicialmente ao procedimento de emergência, mas morreu 25 dias depois. Conforme o inquérito, a morte esteve relacionada a complicações de uma condição genética pré-existente, agravada pelos eventos registrados durante o atendimento hospitalar.

A Polícia Civil informou ainda que não encontrou elementos que apontem responsabilidade criminal da equipe que realizou a cirurgia de emergência posteriormente.

Profissionais foram indiciados

Os seis profissionais foram indiciados pelo crime de aborto provocado por terceiro na forma majorada, previsto nos artigos 125 e 127 do Código Penal. Os nomes dos investigados não foram divulgados.

Agora, o inquérito foi encaminhado ao Ministério Público da Paraíba, que irá analisar o caso e decidir se apresenta denúncia à Justiça.

A advogada da família, Paula Oliveira, afirmou que espera que o Ministério Público acompanhe o entendimento da Polícia Civil.

“O que esse inquérito revela é algo que movimentos de mulheres denunciam há décadas. A violência obstétrica existe e precisa ser enfrentada. Esperamos que os responsáveis sejam devidamente responsabilizados”, afirmou.

Prefeitura diz que adotou medidas

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Campina Grande informou que, desde que tomou conhecimento da denúncia, instaurou procedimento administrativo para apurar os fatos.

Segundo a pasta, os profissionais diretamente envolvidos foram afastados cautelarmente durante as investigações internas. A secretaria informou ainda que dois dos profissionais citados nas apurações já não integram mais o quadro do ISEA.

O município, porém, não detalhou se novas medidas serão adotadas após a conclusão do inquérito policial.

Defesa contesta conclusão

Uma das médicas citadas na investigação se manifestou por meio de nota. A defesa afirmou discordar do indiciamento e sustentou que a conclusão da Polícia Civil não reflete a complexidade do caso nem os elementos técnicos da literatura médica.

Os advogados declararam ainda que confiam na Justiça e que irão demonstrar a inocência da profissional durante o andamento do processo.

Caso gerou forte repercussão

A denúncia veio à tona em março de 2025, quando Jorge Elô utilizou as redes sociais para relatar o que teria acontecido durante o atendimento da esposa no ISEA.

Segundo a família, Danielle deu entrada na maternidade no dia 27 de fevereiro. Após a indução do parto e o agravamento do quadro clínico, ela precisou passar por uma cirurgia de emergência. O bebê nasceu sem vida e a mãe teve o útero retirado.

O caso provocou forte comoção em Campina Grande e reacendeu o debate sobre violência obstétrica e qualidade da assistência prestada às gestantes na rede pública de saúde.

O POVO PB

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