Cabo Gilberto compara avanço da direita à ascensão de Hitler e gera reação de historiadores

6 out 2026 - Notícias / Política

Deputado Cabo Gilberto Silva— Foto: Agência Senado

O deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL-PB) comparou o avanço eleitoral da direita nas Eleições 2026 ao contexto que antecedeu a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha. A declaração foi dada nesta segunda-feira (5), em entrevista à Rádio Arapuan, em João Pessoa, após o primeiro turno das eleições.

Reeleito para a Câmara dos Deputados com 267.142 votos, sendo o candidato mais votado da Paraíba para o cargo, Cabo Gilberto afirmou que o resultado das urnas seria uma reação ao que classificou como uma “humilhação” promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Durante a entrevista, o parlamentar também voltou a defender o impeachment do ministro Alexandre de Moraes.

“A gente quer fazer justiça, e a justiça é cassar o ministro Xandão, para ele pagar pelos seus crimes. Mas sem ultrapassar a questão da humilhação. A gente tem que respeitar”, afirmou.

Para sustentar o argumento, Cabo Gilberto recorreu ao período posterior à Primeira Guerra Mundial e ao Tratado de Versalhes.

Segundo o deputado, as condições impostas à Alemanha após o conflito teriam provocado ressentimento na população e contribuído para o fortalecimento de Hitler e do nazismo.

“Eu gosto muito de história e no final da Primeira Guerra Mundial, Winston Churchill e os vencedores humilharam a Alemanha nazista. Antes de ser Alemanha nazista. Então, a Suprema Corte vem humilhando o povo brasileiro, a liberdade do povo brasileiro, junto nesse conluio com o PT”, declarou.

O deputado afirmou ainda que a população estaria demonstrando nas urnas uma reação a esse cenário.

Questionado pelo jornalista Luís Torres se estava comparando Jair Bolsonaro a Hitler, Cabo Gilberto negou.

“Não, comandante, não. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, comandante. Nada, zero. É só um fato histórico que ocorreu”, respondeu.

O parlamentar afirmou que utilizou o episódio histórico para sustentar a tese de que situações de insatisfação e ressentimento podem produzir reações políticas.

A comparação provocou reações nas redes sociais. Entre os que contestaram a interpretação está o professor Emilio Figueiredo, mestre em Ensino de História, que publicou uma análise sobre o assunto.

Segundo o historiador, atribuir a ascensão de Hitler principalmente à chamada “humilhação” imposta pelo Tratado de Versalhes simplifica um processo histórico mais amplo.

“O Tratado de Versalhes e suas consequências tiveram importância, mas o nazismo resultou de um processo muito mais complexo: crise econômica, instabilidade política, crescimento do ultranacionalismo, antissemitismo, violência política, propaganda e enfraquecimento das instituições democráticas.”

Figueiredo também destacou que o Partido Nazista recebeu 2,6% dos votos nas eleições de 1928, quando o Tratado de Versalhes ainda estava em vigor. Na avaliação do historiador, a principal virada ocorreu posteriormente, especialmente após a Crise de 1929, com o agravamento do desemprego, da pobreza e da instabilidade política.

Outro ponto levantado pelo professor é que Hitler não chegou ao cargo de chanceler simplesmente por ter vencido uma eleição. Ele foi nomeado chanceler por Paul von Hindenburg em janeiro de 1933, em um contexto de crise política, e posteriormente utilizou mecanismos legais, pressão política e violência para desmontar as instituições democráticas.

“Se a humilhação de Versalhes, sozinha, explicasse o nazismo, a Alemanha teria se tornado nazista ainda em 1919”, afirmou Figueiredo.

A fala de Cabo Gilberto coloca no centro do debate a utilização de acontecimentos históricos para interpretar o cenário político brasileiro atual.

O deputado sustenta que a atuação do STF e o tratamento dado a aliados de Bolsonaro estariam produzindo uma reação eleitoral. Já historiadores que contestaram a comparação afirmam que a ascensão do nazismo envolveu uma combinação de fatores econômicos, políticos, sociais e ideológicos, e não uma única causa.

A discussão ocorre após o primeiro turno das Eleições 2026, no qual Cabo Gilberto foi reeleito para a Câmara dos Deputados pela Paraíba.

O POVO PB

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