Jovem morto por leoa na Bica sonhava em “domar leões” e queria ir à África, relata conselheira tutelar

1 dez 2025 - Paraíba

Jovem morto por leoa na Bica sonhava em “domar leões” e queria ir à África, relata conselheira tutelar — Foto: Reprodução

O jovem Gerson de Melo Machado, de 19 anos, morto neste domingo (30) após invadir o recinto de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara (Bica), em João Pessoa, tinha desde a infância um fascínio profundo por felinos e alimentava o sonho de visitar um safari na África. O relato é de Verônica Oliveira, conselheira tutelar que acompanhou o rapaz durante anos.

“Ele dizia desde muito pequeno que ia para a África, para um safari, porque iria domar os leões”, contou Verônica, emocionada ao relembrar a trajetória do jovem.

Segundo a conselheira, Gerson sempre demonstrou forte ligação com animais. “Ele tinha um fascínio muito grande. Uma vez pedi que viesse ao acolhimento às 14h, e ele apareceu com um cachorro no colo. Disse que só iria se pudesse levar o cachorro”, relatou.

A história de Gerson é marcada por abandono, vulnerabilidade extrema e transtornos mentais não tratados. Ele e seus quatro irmãos foram retirados da mãe por decisão judicial porque ela sofre de esquizofrenia grave. As avós também possuíam transtornos psiquiátricos.

“Ele não tinha família extensa capaz de acolhê-lo. Os quatro irmãos foram adotados, mas Gerson não. Ele já apresentava sinais evidentes de transtornos mentais, e isso afastava pretendentes da adoção”, explicou Verônica.

Gerson foi acolhido quando criança após ser encontrado pela Polícia Rodoviária Federal caminhando sozinho na BR, tentando voltar para a casa da mãe, no bairro de Mangabeira. Desde então, passou por diversas instituições.

Ao completar 18 anos, porém, deixou de ser responsabilidade do sistema de acolhimento. Sem família e com transtornos psiquiátricos, acabou vivendo nas ruas de João Pessoa.

Para Verônica, a ausência de políticas públicas para jovens que deixam abrigos aos 18 anos contribuiu diretamente para o desfecho trágico.

“Precisamos de casas de passagem para esses casos, onde eles teriam mais autonomia, mas também acompanhamento. Sem isso, eles são devolvidos à própria sorte”, defendeu.

A conselheira também relatou que Gerson, pela falta de noção de perigo e sua condição mental, era frequentemente usado por terceiros para cometer pequenos delitos.

“Ele muitas vezes era manipulado. Não percebia riscos. Achava que nada iria acontecer com ele”, disse.

A última passagem dele pela polícia ocorreu há apenas uma semana, quando arremessou uma pedra contra uma viatura da Polícia Militar.

O ataque na Bica

O ataque que levou à morte do jovem aconteceu por volta das 10h de domingo, durante horário de visitação. Vídeos gravados por visitantes mostram Gerson subindo por uma estrutura lateral, utilizando uma árvore interna para acessar o recinto da leoa.

Segundo a Prefeitura de João Pessoa, ele escalou uma parede de mais de 6 metros, ultrapassou duas camadas de grades de proteção e entrou no espaço restrito ao animal.

Poucos segundos depois, foi atacado por Leona, leoa do parque. Ele morreu ainda no local.

A morte de Gerson gerou forte comoção e levantou discussões sobre a ausência de políticas públicas voltadas a jovens com transtornos mentais que deixam instituições de acolhimento ao atingirem a maioridade.

Para quem acompanhou sua trajetória de perto, como Verônica Oliveira, o episódio escancara uma falha estrutural:

“Ele não morreu só por ter invadido a jaula. Ele morreu por não ter tido, por anos, o cuidado e o acompanhamento que precisava.”

O POVO PB

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