Laudo aponta mais de 90 tiros em carros de jovens mortos por policiais na Grande João Pessoa

30 abr 2025 - Paraíba

Carro ficou cheio de marcas de tiros após ação da PM paraibana — Foto: Polícia Militar da Paraíba/Divulgação

Um laudo pericial divulgado nesta terça-feira (30) confirmou que os dois veículos onde estavam os cinco jovens mortos durante uma ação da Polícia Militar, em 15 de fevereiro, na Grande João Pessoa, foram alvejados por mais de 90 disparos. De acordo com a perícia, quase todos os tiros partiram de fora para dentro dos carros, com exceção de apenas um disparo interno.

O caso aconteceu na ponte que liga os bairros de Gramame e Mituaçu, na divisa entre João Pessoa e o município de Conde. As vítimas foram identificadas como Fábio Pereira da Silva Filho (26), Emerson Almeida de Oliveira (25), Alexandre Bernardo de Brito (17), Cristiano Lucas (17) e Gabriel Cassiano de Sousa (17), este último filho de Ana Gabriela, vítima de feminicídio no mesmo dia.

Versões divergentes sobre a ação

A Polícia Militar afirma que houve confronto e que os jovens pretendiam vingar a morte da mãe de Gabriel. Entretanto, os familiares das vítimas contestam essa versão e dizem que houve execução. Testemunhas relataram que os jovens já estavam rendidos fora dos veículos quando foram mortos.

Um dos depoimentos apontou que Cristiano Lucas chegou a estar imobilizado, com o rosto no chão e o pescoço sob o pé de um policial, antes de ser morto. As imagens periciais também indicam que os dois veículos foram alvejados após estarem parados, com 74 disparos em um dos carros e 18 no outro.

Críticas à condução da perícia

A perícia foi feita apenas na Central de Polícia, em João Pessoa, depois que os próprios policiais removeram os carros da cena do crime — o que, segundo o laudo, comprometeu a preservação dos vestígios. “Não houve perícia no local do confronto e não se sabe em que condições os veículos foram levados”, afirma o relatório.

As guias médicas do Hospital de Trauma mostram que todos os jovens chegaram mortos, com múltiplos ferimentos por arma de fogo, incluindo traumatismo cranioencefálico e hemorragia torácica.

Posicionamento das autoridades

O Ministério Público da Paraíba (MPPB) instaurou um procedimento para acompanhar a investigação. O promotor Túlio Fernandes criticou a ausência da Polícia Civil no local da ação e afirmou que, se for comprovado que houve excesso ou dolo por parte dos policiais, eles serão denunciados.

“Independentemente de antecedentes, os jovens não deveriam ter sido executados. Não cabe à polícia julgar e executar ninguém”, disse o promotor.

Já o comandante-geral da PM, coronel Sérgio Fonseca, reiterou que a ação foi uma resposta a uma suposta tentativa de ataque. Segundo ele, “provavelmente houve reação por parte do grupo”.

A Secretaria de Segurança Pública afirmou que os policiais agiram no “estrito cumprimento do dever legal” e que todos seguem em atividade, recebendo acompanhamento psicológico.

Avanço das investigações

A investigação do caso foi inicialmente marcada por um impasse sobre qual comarca seria responsável pelo inquérito — Conde ou João Pessoa. O Ministério Público decidiu que a comarca de Conde deve prosseguir com as apurações.

A defesa dos policiais nega irregularidades e afirma que as vítimas estavam envolvidas em práticas criminosas. Segundo o advogado Luiz Pereira, os policiais apenas revidaram uma tentativa de ataque.

Famílias pedem justiça

As famílias das vítimas negam qualquer envolvimento com o crime e acusam a PM de forjar o confronto. Mães dos jovens relataram sofrimento emocional profundo e cobraram justiça. “Meu filho não era bandido. Se fosse, a gente vivia bem. Ele era meu tudo. Não tenho mais vontade de viver”, desabafou a mãe de uma das vítimas.

A série “Ele tinha envolvimento…”, da TV Cabo Branco, trouxe detalhes inéditos do caso, inclusive registros de perícia e depoimentos, ampliando a discussão sobre a atuação da polícia e o uso excessivo da força.

Por O POVO PB com g1

Acompanhe as notícias do POVOPB pelas redes sociais: Instagram e Twitter.

Verified by ExactMetrics