Família relata medo, abandono e falta de tratamento a jovem morto por leoa na Bica: “Ele só queria carinho e proteção”

2 dez 2025 - Paraíba

Justiça publica sentença que determinava internação de “Vaqueirinho” apenas um dia após sua morte — Foto: Reprodução

A morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, após invadir o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa, continua repercutindo e revelando um histórico de vulnerabilidade extrema, transtornos mentais e ausência de tratamento adequado. Nesta terça-feira (2), familiares detalharam a trajetória do jovem, que era conhecido como “Vaqueirinho” e tinha forte ligação com animais desde a infância.

De acordo com a prima Ícara Menezes, Gerson vivia com medo constante de ser agredido nas ruas. “Ele dizia que tinha medo das pessoas darem nele. Por isso achava que preso estava mais seguro”, contou. Segundo ela, o jovem via o Presídio do Róger como um local de acolhimento e confiava no diretor da unidade.

A família relata que Gerson se aproximava dos parentes apenas ocasionalmente, devido aos transtornos mentais. Ele procurava principalmente a mãe, que também apresenta quadros psiquiátricos. Os cinco irmãos foram retirados da família pela Justiça — quatro deles foram adotados, mas Gerson não recebeu adoção por já demonstrar sinais de sofrimento psicológico.

“Ele sempre procurou a mãe por carinho e atenção. Nunca foi um menino violento ou envolvido com drogas. Ele tinha problemas psicológicos, e outras pessoas se aproveitavam disso”, disse a prima.

Ícara também afirmou que o jovem nunca teve acompanhamento psicológico contínuo e que o histórico familiar de transtornos psiquiátricos agravou sua condição. “Ele precisava de tratamento há muito tempo. Nunca teve.”

Responsabilidade do poder público

A família afirma que fez o possível, mas que a responsabilidade pelo acompanhamento era dos órgãos públicos. “Quem poderia ajudar era o poder público. Segurar sozinho uma pessoa neurodivergente, adulta e sem tratamento é impossível”, declarou Ícara, que ainda relatou dificuldades para conseguir atendimento de saúde mental para o próprio filho, diagnosticado com autismo.

Justiça havia determinado internação

Gerson tinha diagnóstico de esquizofrenia e chegou a ter sua internação determinada pela Justiça. Decisão do juiz Rodrigo Marques de Silva Lima apontava que o jovem era inimputável e que o tratamento ambulatorial era insuficiente. A juíza Conceição Marsicano também havia solicitado acolhimento especializado.

Apesar disso, ele não chegou a ser internado em instituição de longa permanência.

Sonho com a África e fascínio por animais

Gerson tinha um sonho repetido desde a infância: viajar para a África para “domar leões”. Segundo a prima, o zoológico da Bica representava para ele o contato mais próximo possível com esse universo.

A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou o jovem por anos, confirmou que ele já havia tentado invadir área restrita do aeroporto para embarcar clandestinamente em busca desse sonho.

“Ele não tinha noção do perigo”

Verônica explicou que o jovem era frequentemente usado por terceiros para cometer pequenos delitos. “Ele não tinha noção do perigo. Achava que nada aconteceria com ele.”

Gerson acumulava diferentes passagens pela polícia, a mais recente há uma semana, quando jogou uma pedra em uma viatura.

O Ministério Público da Paraíba abriu procedimento para apurar as responsabilidades da Prefeitura de João Pessoa e do Parque Arruda Câmara no episódio. A gestão municipal afirmou que segue investigando o caso e reiterou que o local cumpre normas de segurança.

O zoológico segue fechado para visitação. A leoa Leona, que atacou o jovem, não será sacrificada e passa por monitoramento após forte estresse.

O POVO PB

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