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VÍDEO: Gerson, o “Vaqueirinho”: abandono, invisibilidade e falhas de proteção que antecederam a morte na Bica
7 dez 2025 - Paraíba
Gerson, o “Vaqueirinho”: abandono, invisibilidade e falhas de proteção que antecederam a morte na Bica — Foto: Reprodução
A morte de Gerson de Melo Machado, conhecido em João Pessoa como Vaqueirinho, no último domingo (30), ao invadir o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, revelou muito mais do que um episódio isolado. O caso expôs anos de negligência social, fragilidades na rede de proteção e o adoecimento silencioso de um jovem que, desde a infância, dava sinais de sofrimento profundo, nunca adequadamente tratado.
Gerson tinha 19 anos, o mesmo número de anos da leoa Leona, que reagiu por instinto ao ter seu território invadido. A hostilidade do animal ocorreu apenas no momento do ataque, segundo técnicos do parque. A bióloga responsável relatou que Leona apresentou estresse e comportamento repetitivo após o episódio, mas reforçou: a leoa não será sacrificada.
A tragédia, no entanto, começou muitos anos antes.
Aos sete anos, Gerson chamou atenção na escola por comer lixo. Quando o Conselho Tutelar foi à casa onde ele vivia com a mãe, avós e quatro irmãos, encontrou um cenário de extrema vulnerabilidade. Os três adultos responsáveis eram diagnosticados com esquizofrenia.
“Quando entrei na casa, perguntei: que cheiro de podre é esse?”, relatou a conselheira. Sob a cama, ossos recolhidos na feira eram guardados pela avó.
Considerado sem condições de permanecer no lar, Gerson foi encaminhado a uma instituição de acolhimento. Não foi adotado. Não fixou vínculos. Passou por abrigos, pela rede de saúde mental e por famílias acolhedoras, sempre fugindo, sempre voltando ao ponto zero.
A conselheira relatou reencontros dolorosos com a mãe
— “Eu não sou mais sua mãe. Vá com a moça.”
E Gerson, chorando: “Mas você é minha mãe.”
A trajetória do jovem foi marcada por idas e vindas no sistema socioassistencial. No CAPS, psiquiatras apontaram inicialmente transtorno opositor desafiador e transtorno de conduta. Só depois, já próximo da vida adulta, o diagnóstico de esquizofrenia foi confirmado.
Um diagnóstico precoce poderia ter orientado outro tipo de cuidado. “Gerson não tinha um lugar onde se sentisse parte”, resume uma das profissionais que o acompanharam.
Ao mesmo tempo, nas ruas, ganhou o apelido de Vaqueirinho. Cuidava de cavalos alheios, andava com eles, dava banho no rio. Criou uma pequena legião de seguidores nas redes sociais. Mas também foi incitado a cometer pequenos delitos para gerar conteúdo e engajamento, reflexo, segundo especialistas, de uma sociedade que espetaculariza o sofrimento.
Gerson tinha fascínio por animais. Sonhava em “domar leões”. Dizia que iria para a África, que o leão da Bica era “seu amor”. Chegou a invadir o aeroporto para tentar se aproximar de aeronaves que, segundo ele, o levariam ao safari.
As tentativas de fuga eram frequentes. Uma vez, se jogou do segundo andar de um prédio para escapar de uma família acolhedora.
“Ele não tinha noção do perigo”, relatam profissionais que o acompanharam.

Gerson, o “Vaqueirinho”: abandono, invisibilidade e falhas de proteção que antecederam a morte na Bica — Foto: Reprodução
Segundo a Prefeitura de João Pessoa, Gerson invadiu o Parque da Bica de madrugada, escalando um trecho que não faz parte da área de visitação. A partir dali, percorreu sozinho todo o caminho até a área dos grandes felinos.
Imagens mostram Gerson escalando uma estrutura lateral, alcançando o telhado e, em seguida, descendo a árvore que dá acesso ao recinto de Leona.
Os visitantes gritam, mas muitos filmam. O olhar de parte do público está no celular — não no risco iminente.
Gerson hesita quando vê a leoa se aproximar, mas continua avançando. O instinto do animal prevalece. O ataque é fatal.
A tragédia gerou uma revisão emergencial de todos os protocolos. O zoológico agora reforça cercas, instala câmeras inteligentes, treina equipes e amplia barreiras físicas. Mesmo assim, especialistas afirmam: o problema não nasceu na Bica — nasceu bem antes.
Faltou rede. Faltou cuidado continuado. Faltou acompanhamento. Gerson morreu como viveu: sem proteção.
A conselheira que o acompanhou por anos resume o sentimento de quem tentou ajudar:
“Gerson teve atenção nas redes sociais.
Gerson, pessoa, não.
Tudo ao redor dele — a espetacularização, o abandono, a falta de tratamento — é sintoma de uma sociedade adoecida.”
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